Hubert Benoit: impotência e humilhação

muro de tijolos

O problema da angústia humana está todo contido no problema da humilhação. Curar-se da angústia é livrar-se de toda possibilidade de humilhação. De onde vem essa humilhação? De me ver impotente? Não; isso não é suficiente. Ela deriva da minha vã tentativa de não perceber a minha impotência real. Não é a impotência em si que faz a humilhação, mas o impacto sofrido pela minha pretensão à onipotência quando ela entra em choque com a realidade das coisas. Eu não me sinto humilhado porque o mundo exterior me nega, mas pelo malogro do meu empenho em aniquilar essa negação. A verdadeira causa da minha angústia não está nunca no mundo exterior: ela está somente na reivindicação que lanço para fora e que se esfacela de encontro ao muro da realidade. Estou errado quando me queixo de que o muro se tenha desmoronado sobre mim e me tenha ferido; eu é que me feri esbarrando nele; foi o meu próprio movimento que provocou o meu sofrimento. Quando eu deixar de pretender, nunca mais nada me há de ferir.

(…)

Na nossa ânsia de, finalmente, escapar da angústia, nós buscamos doutrinas salvadoras, procuramos “gurus”. Mas o verdadeiro guru não está longe: está diante de nossos olhos e nos oferece constantemente o seu ensinamento: é a realidade tal como ela é, é a nossa vida cotidiana. A evidência redentora está debaixo de nossos olhos, evidência da nossa não-onipotência, evidência de que a nossa pretensão é radicalmente absurda, impossível, e, portanto, ilusória, inexistente; evidência de que não há nada a recear para esperanças que não têm nenhuma realidade; evidência de que estou e sempre estive no chão, não havendo portanto nenhuma possibilidade de uma queda, nenhum motivo para vertigens.

Hubert Benoit, em A Doutrina Suprema

Ajahn Chah: nós somos os sankharas

pássaro cantanto

A visão errada é que os sankharas* somos nós, nós somos os sankharas, ou que a felicidade e a infelicidade somos nós mesmos, nós somos felicidade e infelicidade. Ver as coisas dessa forma não é ter conhecimento completo e claro da verdadeira natureza das coisas. A verdade é que não podemos forçar todas essas coisas a seguir os nossos desejos; elas seguem o caminho da natureza. (…) É o que acontece com os sankharas. Nós dizemos que eles os perturbam, como quando sentamos em meditação e ouvimos um som. Pensamos: “oh, aquele som está me perturbando”. Se entendemos que o som nos perturba, então sofreremos de acordo com essa percepção. Mas, se investigarmos um pouco mais profundamente, veremos que somos nós que perturbamos o som! O som é simplesmente som. Se entendemos isso então se torna simples e podemos deixá-lo em paz. Vemos que o som é uma coisa, nós somos outra. Alguém que acha que o som vem para perturbá-lo é alguém que não vê a si mesmo. Ele realmente não vê! Uma vez que você se veja, você estará calmo. O som é apenas som, por que você deveria agarrá-lo? Você percebe que na verdade foi você que perturbou o som.

*palavra originada do Pali que se refere aos fenômenos condicionados

Ajahn Chah, numa assembleia de monges e leigos em 1970

Foto: Claus H. Godbersen

O homem flechado: uma parábola budista

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Um homem ferido por uma flecha deseja saber quem atirou a flecha, de que direção ela veio, se a flecha é feita de osso ou metal, se a haste é desse ou daquele tipo de madeira antes de remover a flecha do corpo. Este homem se assemelha a aqueles que querem saber a origem do universo, se o mundo é eterno ou não, finito ou não antes de se associar ou praticar uma religião. Da mesma forma que o homem na parábola morrerá antes de ter respondidas suas questões sobre a origem e natureza da flecha, estas pessoas morrerão antes de ter as respostas para essas questões irrelevantes.

Peter D. Santina

Ajahn Chah: não olhe para os outros

Não faça comparações. Não discrimine. Abandone suas opiniões, observe suas opiniões e observe a si mesmo. Este é o nosso darma. Você não pode fazer com que todo mundo aja de acordo com o que você espera ou que seja como você. Essa expectativa só lhe fará sofrer. É um erro comum cometido pelos meditantes, mas observar os outros não traz sabedoria. Apenas examine a si mesmo e aos seus sentimentos. Desta forma você chegará à compreensão.

Ajahn Chah

Foto: Timon Studler

D. T. Suzuki: Dharma sem forma

O Dharma não tem tamanho, nem forma, nem altitude. Para dar um exemplo: aqui está uma grande pedra no pátio que pertence à sua casa. Você se senta nela, dorme em cima dela, sem medo algum. Um belo dia, de repente, você tem a ideia de pintar nela uma figura. Você chama um artista e manda pintar ali uma figura de Buda e acha que ela é o Buda. Você não ousa mais dormir em cima dela, tem medo de profanar a imagem que a princípio não passava de uma pedra. É devido à mudança ocorrida na sua mente que você já não dorme em cima dela. E o que é também, isso que chamam de mente? É o seu próprio pincel saído da sua imaginação que transforma uma pedra numa figura de Buda. O sentimento de medo é uma criação sua. A pedra, em si mesma, é destituída de mérito e demérito.

D. T. Suzuki: A Doutrina Zen da Não-Mente

Foto: Huy Hóng Hớt

Ajahn Chah: a insubstancialidade e impermanência da mente

Nossa mente está sempre mudando. Ela não é um self ou uma substância. Não é, de fato “eu”, não há, de fato, “eles”, embora se possa pensar assim. Talvez a mente pense em se matar. Talvez pense em felicidade ou em sofrimento – todos os tipos de coisas! Ela é instável. Se não tivermos uma sabedoria sólida e formos enganados pela nossa mente, ela nos mentirá continuamente. E alternadamente sofreremos e ficaremos felizes.  A mente é incerta. Este corpo é incerto. Juntos, são impermanentes. Juntos, são uma fonte de sofrimento. Juntos, são desprovidos de um self. Estes, o Buda apontou, não são um ser, nem uma pessoa, nem um self, nem uma alma, nem nós, nem eles. São apenas elementos.  Quando a mente vê isso, ela se livrará do apego que sustenta que “eu” sou belo, “eu” sou bom, “eu” estou sofrendo, “eu” tenho, “eu” isso e “eu” aquilo. Você experimentará um estado de unidade, pois verá que toda a humanidade é basicamente a mesma. Não há “eu”, há apenas elementos.

Ajahn Chah

Foto: Piotr Skrzyński

D. T. Suzuki: onde está o Tao?

Perguntou um monge a Wei-Kuan, de Hsing-shan Ssu: – Onde está o Tao?
Kuan: – Bem na nossa frente.
Monge: – Por que eu não o vejo?
Kuan: – Você não o vê por causa do seu egoísmo.
Monge: – Se eu não posso ver por causa do meu egoísmo, será que o senhor pode vê-lo?
Kuan: – Enquanto houver “eu” e “tu”, a situação se complica e não há visão do Tao.
Monge: – Quando não há nem “eu” nem “tu”, existe a visão do Tao?
Kuan: – Quando não há nem “eu” nem “tu”, quem está aqui para vê-lo? 

D. T. Suzuki: A Doutrina Zen da Não-Mente

Foto: Faye Cornish

Dalai Lama: sofrimento é parte natural da existência

Se o nosso enfoque básico é o de que o sofrimento é negativo, precisa ser evitado a todo custo e, em certo sentido, é um sinal de fracasso, essa postura acrescentará um nítido componente psicológico de ansiedade e intolerância quando enfrentarmos circunstâncias difíceis, uma sensação de estar arrasado. Por outro lado, se nosso enfoque básico aceitar que o sofrimento é uma parte natural da existência, isso indubitavelmente nos tornará mais tolerantes diante das adversidades da vida.

Dalai Lama

Foto: Zetong Li