Ringu Tulku Rinpoche: aceitação das emoções negativas

Seguindo os ensinamentos Vajrayana, não abandonamos nem rejeitamos nada; em vez disso, utilizamos o que quer que apareça. Olhamos nossas emoções negativas e as aceitamos pelo que são. Então relaxamos nesse estado de aceitação. Usando a própria aflição, ela é transformada e transmutada em algo positivo, em sua verdadeira face.  Quando, por exemplo, surge raiva ou desejo intensos, um praticante Vajrayana não tem medo. No lugar disso, ele ou ela seguiriam as instruções que dizem o seguinte: tenha a coragem de se expor às suas emoções. Não rejeite nem suprima, mas também não as siga. Apenas olhe para sua emoção, olho no olho, e tente relaxar dentro da própria emoção.  Não há confronto envolvido. Você não faz nada. Permanecendo desapegado, você nem é carregado pelo emoção nem a rejeita como algo negativo. Então, você pode olhar para suas aflições quase casualmente e até se divertir com isso.  Quando se vai nosso hábito de magnificar nossos sentimentos e a fascinação resultante disso, não haverá nenhuma negatividade e nenhum combustível. Podemos relaxar dentro disso. O que estamos tentando fazer, portanto, é lidar de modo hábil e sutil com nossas emoções. Isso em grande parte equivale à habilidade de exercer a disciplina.

Ringu Tulku Rinpoche
Daring Steps: Traversing the Path of the Buddha

Foto: John Mark Arnold

Ajahn Sumedho: esforço correto

Com o Esforço Correto, pode haver uma aceitação calma a uma situação, em vez do pânico causado por pensar que cabe a mim fazer com que tudo fique certo, corrigir tudo e resolver os problemas de todo mundo. Fazemos o melhor que podemos, mas também nos damos conta de que não cabe a nós fazer tudo e corrigir tudo. (…) Algumas situações na nossa vida são simplesmente como são. Não há nada que se possa fazer, então permitimos que elas sejam como são; ainda que elas piorem, deixamos que piorem. Isso não é fatalista ou negativo; é uma espécie de paciência – estar disposto a suportar algo; permitindo que a mudança natural ocorra em vez de tentar egoisticamente consertar ou arrumar tudo a partir da nossa aversão pela desorganização.

Ajahn Sumedho

Foto: Nadiia Ploshchenko

Stephen Batchelor: meditação da respiração

A meditação da respiração torna você intimamente consciente do ritmo primitivo da sua existência física. (…) Tendo encontrado uma postura estável em que suas costas estejam eretas, direcione toda a sua atenção para a sensação física da respiração conforme ela entra pelas narinas, preenche os pulmões, é pausada, contrai os pulmões, é expelida, pausada novamente e assim por diante. Não controle a respiração; apenas permaneça com uma curiosidade tranquila na consciência do corpo respirando. Se a respiração é curta e superficial, perceba-a como curta e superficial. Se é longa e profunda, perceba-a como longa e profunda. Não há um jeito certo ou errado de respirar.

Stephen Batchelor

Foto: RKTKN

Stephen Batchelor: o grande equalizador

“Se, na posse de um certo corpo”, disse o Buda, “alguém se considera superior e despreza os outros — isso se deve a nada mais do que ignorância”. Este organismo carnal, nascido do ventre de uma mãe e destinado a terminar como pó, é o grande equalizador das coisas. Disseque um cão ou um gato, um peixe ou uma ave, e sob a pele você encontra carne, sangue e ossos como os seus. (…) Quebre a matéria orgânica em proteínas e genes, e encontramos nossa herança comum com todos os seres vivos, de algas a bactérias. Analise os genes enquanto moléculas, átomos e quarks e tocamos o que compartilhamos com pérolas e cometas.

Stephen Batchelor: Living with the Devil

Foto: Aron Visuals

Ajahn Sumedho: apego aos ideais

Nosso sofrimento vem do apego que temos com ideais, e da forma complexa que criamos a respeito de como as coisas são. Nunca somos o que devemos ser de acordo com nossos ideais mais altos. A vida, os outros, o país em que vivemos, o mundo em que vivemos – as coisas nunca parecem ser o que deveriam. Tornamo-nos muito críticos de tudo e de nós mesmos: “eu sei que deveria ser mais paciente, mas eu não consigo ser paciente”… Veja todos os “devos” e “não devos” e os desejos: querer o agradável, querer se tornar algo ou se livrar do feio e do doloroso. É como se houvesse alguém atrás da cerca dizendo, “eu quero isto e não gosto daquilo”. As coisas devem ser deste jeito e não daquele jeito.” Use seu tempo para ouvir a mente reclamando; traga-a para a consciência.

Ajahn Sumedho

Foto: Mick Haupt

Peter D. Santina: Self impermanente

Basicamente, a ignorância é a ideia de um self permanente e independente. É essa concepção de um “eu” oposto e separado das pessoas e coisas à nossa volta. Uma vez que temos a noção de “eu”, temos uma inclinação a favorecer as coisas que sustentam esse “eu” e rejeitar as coisas que ameaçam esse “eu”. (…) Ignorância é desconhecer que o chamado “eu”, o self, é apenas um nome conveniente para um conjunto de fatores dependentes, contingentes e em constante mudança. Existe uma floresta separada das árvores? O “eu” é apenas um nome conveniente para um conjunto de processos.

Peter D. Santina

Foto: Thomas Oxford

Hubert Benoit: aspiração espiritual

O fiel desta ou daquela religião dirá que “Deus” é a autoridade que lhe impõe o dever de sua salvação. Mas quem é esse “Deus” que, ao me impor algo, é distinto de mim e tem necessidade da minha ação? Acaso não está tudo incluído em sua perfeita harmonia?  O mesmo erro pode ser encontrado em alguns homens cujo desenvolvimento intelectual seria suficiente para não lhes permitir crer num “Deus” pessoal. Embora pareçam não mais fazê-lo, se os observamos com mais atenção, vemos que eles acreditam nesse tipo de “Deus”. Imaginam o seu satori, e eles mesmos depois do satori, e eis aí o seu “Deus” pessoal, ídolo restritivo, inquietante implacável. É preciso que eles se realizem, se libertem, se atemorizem diante do pensamento de não consegui-lo, se exaltem diante desse fenômeno interior que lhes dá esperança. Há aí a “ambição espiritual” — necessariamente acompanhada da ideia absurda do “Super-homem” que se deve vir a ser, com a reivindicação desse vir-a-ser — e angústia.

Hubert Benoit: A Doutrina Suprema

Foto: Jana Shnipelson

Bhikkhu Bodhi: desejo e impermanência

No momento em que surge, o desejo cria em nós um senso de falta, a dor do querer. Para acabar com essa dor nos esforçamos para satisfazer o desejo. Se o nosso esforço não é bem sucedido, experimentamos frustração, desapontamento, às vezes desespero. Mas mesmo o prazer do sucesso não é pleno. Nos preocupamos em perder aquilo que conseguimos. Sentimo-nos completos a garantir nossa posição, ganhar mais, subir mais, controlar mais. As demandas do desejo parecem não ter fim, e cada desejo demanda o eterno: queremos que as coisas que conseguimos durem para sempre. Mas todos os objetos do desejo são impermanentes.

Bhikkhu Bodhi: The Noble Eightfold Path

Foto: Mick Haupt

Ajahn Sumedho: prisão no passado

Quantas vezes você tem que sentir culpa pelo seu aborto ou pelos erros que você cometeu no passado? Você tem que passar todo o seu tempo regurgitando as coisas que aconteceram na sua vida e mergulhando em análises e especulações sem fim? Algumas pessoas se fazem tão complicadas. Se você ceder às suas memórias, visões e opiniões sem fazer mais nada, então você ficará para sempre preso(a) neste mundo e nunca o transcenderá. (…) Você pode abandonar esse fardo se usar os ensinamentos de maneira hábil. Diga a si mesmo(a): “Não vou me deixar ser pego por isso novamente; recuso-me a participar desse jogo. Não vou ceder a esse humor.” Comece a se colocar na posição de saber: “eu sei que isso é dukkha; há a presença de dukkha.”

Ajahn Sumedho

Foto: Krišjānis Kazaks

Os oito versos do treinamento da mente

[1] Como aspiro às realizações mais elevadas,
Muito mais preciosas que uma joia realizadora de desejos,
Momento a momento devo cuidar
De todos os outros seres sencientes.

[2] Sempre que eu estiver com os outros,
Devo sentir que eu e os meus desejos não são importantes
E, das profundezas do meu coração,
Devo cuidar dos outros em primeiro lugar.

[3] Atento a todas as minhas ações do corpo, da fala e da mente,
Em todos os momentos em que uma ilusão se manifestar,
Levando a mim e aos outros a agir inadequadamente,
Devo enfrentá-la e impedir que ela cresça.

[4] Sempre que eu encontrar pessoas
Cheias de maldade e de emoções obscuras,
Devo considerá-las como muito especiais,
Como se tivesse encontrado um tesouro precioso.

[5] Quando outras pessoas
Me causarem dificuldades devido à inveja,
Devo tomar para mim a derrota
E lhes oferecer a vitória.

[6] Mesmo que alguém de quem eu tenha cuidado de forma especial
E em quem eu tenha depositado confiança
Se volte contra mim,
Devo enxergá-lo como meu mestre supremo.

[7] Concluindo, eu devo oferecer, direta e indiretamente,
Cada benefício e felicidade a todos os seres, minhas mães,
E tomar para mim, secretamente,
Todas as suas dores e sofrimentos.

[8] Livre dos distúrbios dos oito sentimentos desequilibrados
E enxergando todas as coisas como ilusões,
Que eu possa ser libertado da prisão dos pensamentos negativos.

Geshe Langri Tangpa Dorje Senge, século XI

Fonte: Dharmanet

Foto: Zoltan Tasi